{"id":603,"date":"2017-01-05T15:33:50","date_gmt":"2017-01-05T17:33:50","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.economus.com.br\/?p=603"},"modified":"2019-02-05T09:33:50","modified_gmt":"2019-02-05T11:33:50","slug":"a-equacao-da-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cms1.com.br\/backup\/a-equacao-da-felicidade\/","title":{"rendered":"A equa\u00e7\u00e3o da felicidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cms1.com.br\/backup\/\/media\/banner_noticia_equacao_felicidade.fw.png\" alt=\" \" border=\"0\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a academia e o mercado relacionam a influ\u00eancia da desigualdade social na busca pelo bem-estar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 s\u00e9rio: o segredo da felicidade tem a ver com a redu\u00e7\u00e3o de expectativas. Aquele seu amigo piadista das redes sociais e o para-choque dos caminh\u00f5es pelo Brasil est\u00e3o h\u00e1 muito tempo falando a verdade. Quem endossa essa tese s\u00e3o cientistas e soci\u00f3logos, cujas descobertas sobre o estado de esp\u00edrito mais cobi\u00e7ado pela humanidade est\u00e3o na mira de corpora\u00e7\u00f5es dos mais variados tipos e tamanhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa tal felicidade pode, claro, se fazer presente nas coisas mais simples da vida, como tomar um picol\u00e9 ou curtir uma roda de viol\u00e3o. O \u201cpovo de humanas\u201d tem muito a dizer sobre isso. Mas a l\u00f3gica por tr\u00e1s desse sentimento tem sido cada vez mais alvo de estudo e pesquisa de institui\u00e7\u00f5es renomadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a academia tem chegado ao mesmo tipo de conclus\u00e3o que a sabedoria popular, a quest\u00e3o passou a ser como medir o grau de felicidade de uma pessoa ou de um grupo. Esse desafio toca principalmente neurocientistas e economistas: quantificar algo t\u00e3o abstrato que deveria ser imposs\u00edvel de medir. Mas eles insistem. A busca n\u00e3o come\u00e7ou agora. Os gregos, como sempre, deram a largada l\u00e1 atr\u00e1s. Alguns s\u00e9culos depois, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, prop\u00f4s uma experi\u00eancia em longo prazo, da qual at\u00e9 o ex-presidente norte-americano John Kennedy participou. Veja no v\u00eddeo abaixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m est\u00e3o nesse jogo de passar a felicidade a limpo equipes como a da University College London, do Reino Unido. Eles publicaram em 2014 e atualizaram neste ano uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica que, segundo os criadores, \u00e9 capaz de prever se uma pessoa ser\u00e1 feliz e ainda determinar como a prosperidade alheia e a desigualdade social s\u00e3o capazes de afetar a felicidade individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para chegar \u00e0 \u201cf\u00f3rmula da felicidade\u201d, o time liderado pelo neurocientista Robb Rutledge estabeleceu o seguinte processo na primeira etapa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 26 pessoas foram submetidas a uma s\u00e9rie de tarefas em que, a partir de decis\u00f5es que elas tomavam, poderiam ganhar ou perder dinheiro;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Enquanto as decis\u00f5es eram tomadas, os participantes respondiam o quanto estavam felizes naquele instante;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Uma resson\u00e2ncia magn\u00e9tica media a atividade cerebral de cada participante no momento em que ele dava a resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esses dados, os pesquisadores deduziram a equa\u00e7\u00e3o, considerando o que os participantes esperavam ganhar, as recompensas obtidas e as sensa\u00e7\u00f5es geradas no c\u00e9rebro de cada um deles. E a conclus\u00e3o da equipe foi que\u2026 sim, as suas expectativas definem o quanto voc\u00ea ser\u00e1 feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O time do dr. Rutledge ampliou a brincadeira. Por meio de um jogo de celular, estenderam o teste a 18 mil pessoas. O resultado: \u201cexpectativas mais baixas tornam mais prov\u00e1vel que um resultado as supere e tenha um impacto positivo na felicidade\u201d. E que o simples fato de planejar e esperar que algo bom aconte\u00e7a pode nos deixar mais felizes, mesmo que por um breve momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 a\u00ed, nenhuma grande novidade. Mas o endosso cient\u00edfico ao senso comum ajuda a entender dist\u00farbios ligados \u00e0s emo\u00e7\u00f5es humanas, como o transtorno de humor. Conseguir quantificar a possibilidade desse tipo de mal na popula\u00e7\u00e3o pode ajudar pol\u00edticas preventivas de sa\u00fade e, claro, a evitar preju\u00edzos ao capitalismo: uma pessoa infeliz tem grandes chances de produzir menos e pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMinha abordagem matem\u00e1tica pode ser usada para entender muitos tipos de emo\u00e7\u00f5es diferentes\u201d, disse Rutledge ao TAB. \u201cPodemos come\u00e7ar a ter um entendimento mais detalhado das emo\u00e7\u00f5es humanas. Isso poderia potencialmente ser usado por empresas para melhorar a satisfa\u00e7\u00e3o de empregados e clientes, perguntando para as pessoas sobre sua felicidade e prevendo-a com base em suas experi\u00eancias. Tamb\u00e9m espero que possa ser usado para entender o que acontece com as pessoas que t\u00eam depress\u00e3o\u201d, completou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2016, foi anunciado o resultado da segunda etapa do estudo. Eles conclu\u00edram que a desigualdade social no seu entorno tem impacto na sua felicidade individual. A interpreta\u00e7\u00e3o dos pesquisadores \u00e9 que a generosidade com estranhos est\u00e1 ligada a como a sua felicidade \u00e9 afetada pelo cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Medir a empatia das pessoas, de acordo com os cientistas, pode clarear a compreens\u00e3o sobre dist\u00farbios sociais como o transtorno de personalidade borderline ou a indiferen\u00e7a que alguns t\u00eam ao sofrimento dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias cient\u00edficas como as dos estudos dos EUA e do Reino Unido funcionam como um selo de qualidade, e \u00e9 nesse tipo de material que um grupo de S\u00e3o Paulo busca o seu rumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os frequentadores do \u201cA\u00e7\u00e3o para Felicidade\u201d se re\u00fanem duas vezes por m\u00eas. N\u00e3o h\u00e1 pretens\u00e3o pol\u00edtica, religiosa nem comercial. A orienta\u00e7\u00e3o das atividades vem de um movimento internacional que tem como patrono o Dalai Lama. Eles come\u00e7aram a se encontrar no fim de 2015, quando um jovem monge budista que alguns conheciam trouxe a ideia. O grupo paulistano \u00e9 pioneiro no Brasil e serviu de modelo para outros seis, em Minas Gerais, Paran\u00e1, Pernambuco, Santa Catarina e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Causar mais felicidade \u2014 e menos infelicidade, por consequ\u00eancia \u2014 no mundo ao redor \u00e9 o objetivo. A cada sess\u00e3o, que conta em m\u00e9dia com dez pessoas, os participantes discutem maneiras de manter esse compromisso ap\u00f3s alguns minutos de medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa reuni\u00e3o da qual o TAB participou, a palavra de incentivo era \u2018prop\u00f3sito\u2019, trazida pela psic\u00f3loga e coach Camila Melo, 35, que participa h\u00e1 dois meses. A miss\u00e3o sugerida por ela: use seu talento natural para modificar o entorno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 uma maneira de exercitar formas de conseguir chegar a resultados que eu pretendo, minha transforma\u00e7\u00e3o pessoal, sem que eu precise necessariamente remunerar um profissional que me conduza. Eu sempre achei muito elitista s\u00f3 algumas pessoas terem acesso a isso [porque podem pagar pela forma\u00e7\u00e3o]\u201d, ela afirma. \u201cA gente diz que aqui parece o AA da felicidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tom de brincadeira ela faz a refer\u00eancia ao trabalho volunt\u00e1rio de recupera\u00e7\u00e3o de dependentes do \u00e1lcool, mas h\u00e1 mesmo um clima de terapia em grupo, de expor dificuldades particulares e ouvir conselhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAchei bacana a desvincula\u00e7\u00e3o religiosa\u201d, diz o professor de ingl\u00eas Marcus Vin\u00edcius Abbehausen, 49, que frequenta as reuni\u00f5es h\u00e1 seis meses. \u201cEu gosto de ler os artigos cient\u00edficos que s\u00e3o disponibilizados [no site], sinto mais base te\u00f3rica, acredito mais\u201d, afirma. A f\u00e9 aqui \u00e9 na ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felicidade Industrial<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aprimoramento cient\u00edfico em medir emo\u00e7\u00f5es \u00e9 criticado soci\u00f3logo brit\u00e2nico William Davies, autor do livro \u201cThe Happiness Industry: How the Government and Big Business Sold us Well-Being\u201d (\u201cA Ind\u00fastria da Felicidade: Como o Governo e o Grande Neg\u00f3cio Nos Venderam Bem-Estar\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Davies admite que pesquisas e programas sobre felicidade e bem-estar s\u00e3o um avan\u00e7o, mas n\u00e3o a favor das pessoas, e sim no apoio a uma agenda de interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos, muitas vezes com fins mais privados do que p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa era das imagens por resson\u00e2ncia magn\u00e9tica, tem se tornado cada vez mais comum falar sobre o que nossos c\u00e9rebros est\u00e3o \u2018querendo\u2019 ou \u2018sentindo\u2019. Em muitas situa\u00e7\u00f5es, isso \u00e9 representado como uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es mais profunda do que qualquer coisa que pud\u00e9ssemos relatar verbalmente\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais esse sentimento particular \u2014 que \u00e9 a felicidade \u2014 se aproxima de algo concreto, massificado, que podemos tocar ou at\u00e9 mesmo manusear, fica mais f\u00e1cil dar a ele um valor que se pode calcular<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos Estados Unidos, empresas de pesquisa de opini\u00e3o estimam que a infelicidade dos assalariados custa \u00e0 economia do pa\u00eds US$ 500 bilh\u00f5es por ano em produtividade reduzida, receitas fiscais perdidas e custos com sa\u00fade, de acordo com o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA ci\u00eancia da felicidade alcan\u00e7ou a influ\u00eancia que tem porque promete a solu\u00e7\u00e3o que tanto se esperava. Em primeiro lugar, economistas da felicidade s\u00e3o capazes de colocar pre\u00e7o monet\u00e1rio no problema da mis\u00e9ria e da aliena\u00e7\u00e3o. Isso permite que nossas emo\u00e7\u00f5es e bem-estar sejam colocados dentro de c\u00e1lculos mais amplos de efici\u00eancia econ\u00f4mica\u201d, aponta Davies.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que isso, para que f\u00f3rmulas e pol\u00edticas p\u00fablicas sociais sejam apresentadas como coerentes, o processo de industrializa\u00e7\u00e3o da felicidade precisa que todos os humanos pensem e sintam as rela\u00e7\u00f5es e o entorno do mesmo jeito, algo bem distante da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO que a ind\u00fastria do consumo e o seu discurso vem fazendo em torno da felicidade, com todos os seus gurus, desde o chefe da felicidade em uma empresa, o cara da medita\u00e7\u00e3o, o outro que diz que empreendeu e agora n\u00e3o tem mais chefe, desde o motorista do Uber at\u00e9 o agente de viagem, \u00e9 ganhar em cima da gente nos fascinando, porque ficam vendendo caminhos poss\u00edveis para chegar l\u00e1 [\u00e0 felicidade]\u201d, afirma Michel Alcoforado, antrop\u00f3logo e s\u00f3cio-fundador da Consumoteca, empresa especializada em pesquisa e comportamento do consumidor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que apare\u00e7a um novo mestre espiritual, uma nova dieta, um novo passo a passo para o \u00c9den ou uma nova verdade sobre o colesterol da gema do ovo, o mantra da hora \u00e9 ostentar. Enquanto a resposta para a felicidade n\u00e3o chega, exibimos e compartilhamos a ideia de que estamos podendo muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bens usados para uma movimenta\u00e7\u00e3o social at\u00e9 um &#8220;lugar de destaque&#8221; \u2014 uma caracter\u00edstica forte da sociedade brasileira \u2014 ficam desvalorizados quando mais gente pode comprar o que voc\u00ea j\u00e1 tem. Nesse jogo de quem \u00e9 o mais feliz, quanto mais exclusiva a felicidade, melhor a posi\u00e7\u00e3o no campeonato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSobretudo nas elites, \u00e9 comprar experi\u00eancias. Num processo em que voc\u00ea tem uma redefini\u00e7\u00e3o de classes no Brasil, muitas pessoas come\u00e7am a poder comprar coisas, e o principal sinal de distin\u00e7\u00e3o das elites \u00e9 caminhar dizendo: \u2018Olha, coisas n\u00e3o me servem mais, porque elas n\u00e3o me distinguem mais com tanta for\u00e7a. Eu vou em busca das experi\u00eancias\u2019, afirma Alcoforado. \u201cSe qualquer um pode comprar uma bolsa da Chanel, poucas pessoas podem fazer um mochil\u00e3o pelo Sudeste Asi\u00e1tico e comer aquele frango com molho \u2018thai\u2019 em Bancoc, que ningu\u00e9m conhece\u201d, completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem consumo n\u00e3o se vive, n\u00e3o adianta fugir, diz o antrop\u00f3logo, pois \u00e9 essa a regra do jogo. O segredo para n\u00e3o ser engolido \u00e9 escolher o tipo de partida que voc\u00ea topa encarar. Tudo em nome da felicidade &#8211; ou daquilo que imaginamos que ela seja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: tab.uol.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a academia e o mercado relacionam a influ\u00eancia da desigualdade social na busca pelo bem-estar \u00c9 s\u00e9rio: o segredo da felicidade tem a ver com a redu\u00e7\u00e3o de expectativas. 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